Carlos Farinha, um diabético com o BTT no sangue

É diabético, mas nunca deixou que a doença o vencesse. Carlos Farinha formou um
projecto à volta das Diabetes e do BTT e até já ganhou um prémio internacional

Carlos Farinha, de Castelo Branco, tem 38 anos e é um apaixonado pelo BTT. Casado e com três filhos, Fez um blog – omeubtttemdiabetes.blogspot.com – e “formou” uma “equipa” de 39 atletas que já envergam o jersey do projecto. Engenheiro de formação, lida diariamente com uma doença que afecta cerca de um milhão de portugueses, a diabetes. E leva ao peito o símbolo dessa doença, o blue O, como forma de chamada de atenção. 
Foto: Nuno Maia
Há quantos anos faz BTT?
Pratico desde que saí da tropa, em 1994. Comprei uma Orbita e, já pelo final, passava as mudanças diretamente no desviador traseiro, com uma chave de fendas. Vivi na Holanda e em França, por causa do emprego, onde tinha como meio de transporte, uma bicicleta representativa de cada um desses países.

Fez algum desporto antes?
Sempre pratiquei desporto amador. Judo, karaté, atletismo em pequeno, ténis, andebol e basquetebol no básico e secundário. Dos meus 13 anos em diante fui escoteiro e praticava muitas atividades ao ar livre, sobretudo os famosos “raids” – hoje caminhadas! Já adulto, e fora de Portugal, iniciei-me no squash e natação. As bicicletas acompanham-me desde pequeno.
E foi já em adulto que desenvolveu Diabetes. Como viveu essa altura?
Foi uma questão de duas ou três semanas desde os normais sintomas até ao diagnóstico definitivo e, apesar de ter sido em idade adulta, é Diabetes Tipo 1.
Tinha acabado a tropa e retomei os estudos a meio do ano letivo. Como estudava à noite, tinha tempo para os meus “treinos” de BTT, com bastantes caimbras, até então desconhecidas para mim, muita sede e a consequente micção, associada à perda de peso, mas com uma fome devoradora. Algo não estava bem! Neste rápido desenrolar o que mais me constrangia era a rapidez com que tinha de encontrar uma casa de banho.
Não me esqueço dos olhos dos meus pais nessa consulta. Guardo esse primeiro registo 537mg/dL. Para mim a notícia foi normal, se o posso definir assim. ‘É para o resto da vida? Está bem. Então como se faz?’, foi o que pensei.
Foto: Nuno Maia
Afectou a forma como olhava para o desporto e para o BTT?
Inicialmente não. A bem dizer não fazia uma ligação causa-efeito! Como sempre fiz desporto amador, conseguia gerir bem. Com a idade, os objetivos que nos colocamos e o stress do dia-a-dia… Gestão é a palavra!
Que cuidados especiais passou a ter?
Aprendi a perceber os sintomas que o corpo nos transmite e, na dúvida, que tenho de medir a glicémia, para confirmar! Ter a ideia clara que nem sempre o que sentimos corresponde à realidade! Na alimentação, passei a comer melhor. Também aí, às vezes, “perdoa-se o mal que faz, pelo bem que sabe”. Não deve ser assim. Uma cabeça disciplinada é fundamental. Um exemplo: a gordura tem três vezes mais Hidratos de Carbono que o açúcar, na mesma quantidade.
Como  e quando teve a ideia de criar o blog e o conceito blue O?
Na condição de desempregado, em 2009, fui ao Campeonato Norte Alentejano, Prova de Avis – XCO. À 1ª passagem, já com sintomas de hipo, comi muito pouco. No decorrer da 2ª volta, esvaziei os bolsos por completo, terminando bastante tarde e ainda por recuperar. Na meta havia mais de 8 pessoas da organização, mas nenhuma me perguntou o que se tinha passado!
Com este episódio, pensei num equipamento alusivo, em parte por causa de uma prova de 24h nesse ano, em Castelo Branco, que António Girão tinha, todo personalizado. Já lhe referi pessoalmente este pormenor.
Em 24 Setembro de 2009 começo a rubrica no Forum BTT – Saúde e Treino; “omeuBTTtemDIABETES”.Iniciei os contactos para apoios e, com algumas respostas afirmativas, nasceu o blog e, rapidamente, a divulgação nas redes sociais e pelo interesse e contacto de outros desportistas, também diabéticos, a página “Projecto blue O”.
Foto: Nuno Maia
Quantas visitas tem, em média, por mês?
Penso que poucas, infelizmente, assim como as mensagens a alguns posts que escrevo. Não existe muito retorno, principalmente só de amigos! Hoje em dia nas redes sociais, via Internet  fazem-se amizades mais rápido do que os locais que poderemos visitar. As marcas defendem estas redes sociais por criarem um maior feedback com o público-alvo. Em parte concordo.

Escreve também em inglês. Tem muitos leitores estrangeiros?
Alguns. O inglês, por ser a primeira língua estrangeira, serve para assegurar uma maior abrangência de público, se necessário também escrevo em espanhol e francês, falta-me é tempo para tudo.

Sente que tem ajudado a passar a mensagem que um diabético pode praticar desporto?
Sem sombra de dúvida. Esse é o principal objectivo do “Projecto blue O”. Há que desmistificar esse mito, pode e deve manter-se activo!
A diabetes não acarreta impedimento perante o desporto, faz parte do seu tratamento, a par de uma dieta equilibra e a insulina, ou antidiabéticos orais. O desporto, em qualquer dos vários tipos de diabetes, ajuda a transformar os HC ingeridos para o sangue, isso é fundamental.

Que conselhos rápidos daria a um diabético que quisesse praticar desporto?
Conhecer a SUA diabetes é essencial, perceber os sintomas que o corpo nos transmite, e depois vamos aperfeiçoando. Convém ter sempre os bolsos cheios – HC, e de acção rápida também – para não ter uma hipo de surpresa. Uma prática desportiva, ao gosto de quem a pratica, é essencial, 30/40min diários ajudam a regular os valores e a transformar os HC presentes no sangue.
Orgulha-se de já muitos correrem/pedalarem com a camisola blue O? Quantos são?
Até há pouco tempo éramos 39, mas nem só o/a diabético/a usa o jersey. Na sede da Canyon, em Koblenz, na Alemanha, há um numa parede. Espanha e Costa Rica do outro lado do Atlântico! Este ano seremos mais…
Há algum nome célebre do BTT nacional que também sofra de diabetes?
Que eu conheça, no BTT não.
Foto: Nuno Maia
Quantos kms faz por mês? Só BTT ou também estrada?
A bicicleta de estrada surgiu este ano na consequência da dimensão que a “blue O/Projecto blue O” têm alcançado. Confesso que faço mais kms de manutenção em estrada, em menos tempo pedalo mais. No geral não faço assim tantos, talvez mais de 400 no total – BTT/estrada -, mas depende do tempo disponível para treinar. Tenho consciência que é pouco!
Treina durante a semana? Maratonas ao fim de semana?
Os treinos durante a semana são difíceis, pois acima de tudo sou pai de família e há  deslocações para as actividades extra-curriculares dos mais pequenos. Para quem faz maratonas e só tem tempo para treinar cerca de 1h30m por dia, por muito esquematizados que sejam os treinos, isso é pouco, daí que sofra “alguma coisa” quando as maratonas são maiores. A Ultimate tem-me ajudado bastante.
No entanto, há as caminhadas e algumas corridas que fazem parte do meu dia-a-dia, quando não há bicicleta. No Inverno é pior, mas mesmo com chuva e frio nunca é impedimento para sair e fazer a minha caminhada diária!
Em alguns fins-de-semana, faço as maratonas, maioritariamente começam em Março e vão até Outubro  Em Agosto  acho que nunca. O meu calendário vai sendo traçando no blog. Este ano proponho-me fazer ciclismo e, quem sabe, uma prova de triatlo.
Qual a sua Maratona de eleição?
A “Trilhos da Raia” – Idanha-a-Nova – é muito boa. Foi a primeira onde fiz mais quilómetros, passo e explicar. No meu ponto de vista, que costumo ser dos últimos a chegar – se faço a distância maior – enquanto passo nos abastecimentos ainda há de tudo para trincar. Quando termino tomo o banho relaxante e quente e acabo com uma boa refeição, fora de horas, mas quente. Neste panorama é garantido que houve preocupação em escolher os melhores trilhos e essa, para mim, é uma boa Maratona.
Quantas provas faz por ano?
As patrocinadas vão de 10 a 14 ano. Esta temporada agradeço à Novo Nordisk Portugal, sem eles seria difícil estar presente em algumas provas
Quantas bicicletas já teve?
Desde pequeno, roda 20 até à 29, passando pela BMX, foram oito, sendo que a 7ª e a 8ª são as deste ano.
Qual a bicicleta atual?
Para estrada tenho uma Canyon Ultimate AL 9.0 e para os trilhos uma Canyon Grand Canyon SLX CF 29.
E outros gadgets?
Comecei com o simples conta km, passei para o Polar, Garmin Edge 500 e estou no Edge 800, dá-me mais do que lhe peço! Tenho comprado metade de uma luz, falta-me a bateria, e começo a pensar que uma câmara HD seria um bom investimento!
Já investiu muito dinheiro no BTT?
Como já disse, o Projecto foi um conciliar de situações, monetariamente falando não estava bem nessa altura. Tenho tido o privilégio de conseguir algum material, sem um custo directo  pelos apoios prestados. Não sou excêntrico, mas com um dinheiro de um PPR de quando trabalhei em França, permitiu-me gastar só com uma transferência bancária, uns 2500€ na minha primeira Canyon Race 9.0. Para o que vejo nem é nada! É tudo uma questão de bom senso, acho. Quem pratica alguma actividade   e que lhe vai tomando o gosto, é inevitável, e até nos apercebemos que comprar barato, nem sempre é o melhor.
Foi fácil reunir apoios à volta dos Projecto blue O?
Nunca é fácil. Sendo amador, é ainda  mais complicado. A minha abordagem é sempre no brio em mostrar o apoio prestado, algum do retorno acontece na divulgação que o Projecto blue O já tem.
Internacionalmente, em 2012, foi distinguido como “Week Heroe” da IDF (Federação Internacional da Diabetes). Em 2013 começamos com a entrevista que estão a ler. ObrigadO! E passo a enumerar os apoios que temos em 2013:
www.rutilva.pt – Pro-Tec
Que projectos tem para o futuro?
A nível pessoal, continuo a procurar do “meu” emprego ideal, relacionado com a minha formação académica em alimentação, gosto bastante da área e tenho pena em não estar a exercer.
No BTT para sempre irei representar a “blue O”, só me falta o capital para registar a marca e concorrer a CEO!!! Novos apoios, equipamentos e entusiastas irão surgir, com o blog e as redes sociais a funcionarem como ferramentas de divulgação.
“Projecto blue O” é mais abrangente. Tem vários “gestores” especializados, todos amadores acreditem! Corrida, escalada, trail, corfebol, BTT/ciclismo… Com diabetes é fundamental manter-mo-nos activos – praticar desporto – ajudar a baixa valores de glicémia, evitando as normais complicações.
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comentários

4 Comments on Carlos Farinha, um diabético com o BTT no sangue

  1. Grande Carlos! Conheço pessoalmente este guerreiro e tenho muito orgulho nisso! Sem dúvida alguma um grande exemplo de força de vontade e dedicação! Continua Carlos!

    Sérgio Galão

  2. Grande mesmo este Carlos! grande abraço!
    Nuno Ribeiro

  3. Grande abraço para ti Nuno.

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