Hugo Carvalho, o homem do “Espigão” no BTT

É enfermeiro de profissão, mas isso não o impede de ser um dos nomes mais respeitados no BTT nacional. Já participou em mais de 140 "maratonas" e venceu 35...

Quem anda nas lides do BTT não pode deixar de saber quem é Hugo Carvalho, enfermeiro de 35 anos, casado e com um filho, mas que é mais conhecido na comunidade como o “Espigão”. O porquê dessa alcunha vamos conhecer durante esta entrevista ao nosso atleta de topo da semana, um apaixonado pelo pedal que, só em 2012, fez 16 mil quilómetros em cima da bicicleta.

Olá Hugo. Há quantos anos faz BTT?
Na verdade, comecei muito cedo a aventurar-me nos trilhos da Serra da Arrábida, mas para efeitos de “prática de BTT”, considero a altura em que comprei a minha primeira bicicleta de todo-o-terreno e que fiz a minha primeira prova de XCO, que aconteceu há cerca de 20 anos.
Sempre foi o seu desporto de eleição?
Desporto de eleição, para mim, é o próprio desporto. Pratiquei vários, sempre me adaptei bem aos mesmos e tive também muito prazer enquanto os pratiquei. Muitos amigos não sabem, mas o primeiro de todos foi mesmo a patinagem artística num clube em que o “desporto rei” era e é o hóquei em patins – também já o foi mais em Portugal. Mas eu preferia andar no meio das patinadoras com os seus fatos justos e saias a voar, sabe-se lá porquê…
Depois virei-me para outro desporto, também nesse clube tendo depois representado outros, que me marcou muito e que foi o ténis. Fui federado 10 anos e era um grande vício. Fiz muitas provas e cheguei a um bom nível tendo até dado umas aulas da modalidade. Só que, como infelizmente se sabe, no nosso país o futebol abafa todas as outras modalidades e é muito complicado as mesmas evoluírem e conseguirmos os apoios que precisamos para também evoluirmos. A nível escolar passei pelo voleibol e basquetebol e depois com a vida militar, veio o atletismo e a natação. Mas o bichinho das pedaladas já vinha mesmo de muito novo e o facto de viver ao lado da Serra da Arrábida, um local paradisíaco para a prática de BTT, ajudou a manter este vício.
 
Ter uma serra à porta de casa fez de si um melhor BTTista?
Nem melhor nem pior. Um sortudo apenas…

 

Quantos quilómetros faz por mês?
Por volta dos 1500.
Sempre em BTT ou também faz estrada?
Faço muita estrada, em viagens para o trabalho ou em treinos, mas sempre com BTT. Não tenho bicicleta de estrada.
 
Consegue treinar, ou “treina” nas provas ao fim-de-semana?
Tenho uma profissão que me permite treinar ao longo da semana. Quando trabalho por turnos há sempre uma manhã e/ou tarde para treinar e o dia de folga. Com horário das 9h às 17h, treino antes de entrar ao serviço ou completo o regresso a casa com uma ida à Serra. E é claro que todas as provas ao fim de semana servem para treinar.
 
É auto-didacta ou tem algum treinador?
Sempre “auto-didacta”, até hoje. Sinto assim ainda mais prazer no que faço, mas não quer dizer que mais tarde não possa vir a recorrer a um treinador
Que tipo de BTTista é? Trepador, mais técnico, rolador…?
Peso 85 quilos, o que no BTT não me permite ser grande trepado. Quanto à técnica, gosto de descer, penso que tenha alguma, mas já arrisquei mais, quando era mais novo, e a verdade é que o meu peso também não joga muito a favor. Agora a rolar a coisa muda completamente de figura. Já me disseram – alguns mais entendidos na matéria – que se me dedicasse à estrada, em contra-relógios e em etapas mais rolantes, poderia fazer “estragos” em muitas provas. Quase todos os meus amigos, colegas de equipa, etc, sabem que rolo bem e muitos também se aproveitam disso nas provas…
Tem um currículo invejável. Em quantas provas já participou e quantas ganhou?
Acho que ninguém inveja o meu “currículo” porque simplesmente nada tem de especial, na minha opinião. Já participei em bem mais de uma centena de eventos, venci muitos, é verdade, há quem diga que sou recordista de vitórias em Maratonas de BTT, mas orgulho-me mais de outros feitos que propriamente dos resultados. Quem tem títulos nacionais e internacionais é que tem currículos de respeito. Respeitável e não invejável para mim.
Orgulho-me de uma aventura pelos Açores, há uns anos, e que ainda hoje inspira muitos amigos que me ligam, frequentemente, a perguntar pormenores dessa aventura, orgulho-me de, por exemplo, na época passada ter chegado às 40 maratonas e feito cerca de 16 mil kms em BTT, orgulho-me de ajudar e inspirar muitos amigos também nas suas aventuras e objectivos, orgulho-me de contribuir com os meus conhecimentos para várias marcas nacionais, orgulho-me de muita coisa que passa ao lado dos resultados. Vencer sabe sempre bem, como é óbvio, é óptimo assistirmos à nossa evolução física, é óptimo sentirmo-nos bem e fortes, é  óptimo receber um cabaz de produtos regionais, mas acho que pedalo mais por tudo o que referi atrás. Neste capítulo não posso deixar de agradecer à Gold Nutrition por toda a qualidade, segurança e eficácia dos seus suplementos que me permitem esta carga tão elevada de Maratonas e treinos, pelo meio de semanas de trabalho em ambientes contaminados, de algum stress, poluição pelo meio de filas de trânsito a pedalar, dedicação à família, etc…
Qual a vitória mais importante ou que mais recorda por algum episódio?
Gostei por exemplo de vencer em Cabeça Gorda, em 2010, ou nos Trilhos de Baco, na época passada, dois eventos de enorme qualidade realizados por grandes amigos. Outros também tiveram sabores especiais  ou pelos amigos ao meu lado no pódio alguns deles, ídolos de sempre (ex: Vitor Gamito), ou pela ocasião da vitória (ex: nascimento do meu filho), ou pelo que me custou a vencer…
Tem noção do dinheiro que já investiu no BTT?
Não, nem quero. Esta é daquelas modalidades que é preferível não fazer contas aos gastos senão corremos o risco de ter qualquer coisa cardiovascular… Já gastei muito, não só em bicicletas como em equipamentos, suplementação e é como digo, é melhor não fazer contas. Hoje tenho a sorte de ter apoios que me permitem fazer uma época repleta de eventos de Norte a Sul do país sem gastar um tostão, mas trabalhei muito para esta situação e só passados 17 anos de BTT é que tive esta “sorte”. Isto é só para não pensarem – como muitos pensam – que sempre tive tudo isto… Mas é um desporto algo caro a não ser que só o pratiquemos ao domingo e em ritmo de passeio. Quem treina bem e aspira a bons resultados ou a uma boa performance numa prova é obrigado a investir bem.
Qual foi a primeira bicicleta que teve?
A primeira BTT “a sério” foi uma Alpestar. Mas a primeira de todas foi uma esmaltina, daquelas com banco almofadado com encosto e guiador estilo Harley…
Quantas já teve?
Algumas. Nunca fui muito colado a marcas. Sempre gostei de novidades, de testar novas marcas e acima de tudo, sempre tentei até hoje procurar a melhor relação qualidade/preço. Posso falar em marcas como a Alpestar, American Eagle, BH, Merida, Scott, Corratec, Fuji, Ghost… todas grandes máquinas que passaram pelos meus canivetes.
E qual a bicicleta que tem actualmente?
Duas BTT´s. Uma de alumínio para os treinos, a Olympia Master 29er, e outra em carbono, a Olympia Nitro 29er, para as provas. Ambas grandes máquinas, com estéticas brutais, comportamentos excelentes, bem equipadas e uma vez mais com uma relação qualidade/preço quase imbatível. Já agora não posso deixar de agradecer esta experiência de comandar duas grandes máquinas à SUPERBIKES, que tudo tem feito para que nada falhe quando entram em acção. Os componentes SNV Light também têm culpa no cartório, com a sua resistência/longevidade. Também já agora, deixo um agradecimento ao amigo Cajó por todo o seu elevado profissionalismo à frente desta marca.
Olympia Nitro 29er
 
Já pensou em ser profissional do BTT?
Nunca pensei em tal. Adoro a minha profissão e sempre vivi o desporto apenas como um grande prazer a ocupar-me os meus (poucos) tempos livres.
E gostava de o ser?
Isso teria de implicar a privação de alguns grandes prazeres que tenho nesta vida e como “a vida são dois dias”, não sei. Mas se tivesse de ser, seria em nome também de algo que me dá muito prazer, e podia fazer alguns sacrifícios. Não conheço nenhum profissional que devore três ou quatro pacotes de bolachas carregadas de chocolate todas as noites e se deite também todos os dias por volta da uma/duas da manhã e acorde às 5h30 para treinar e/ou ir trabalhar… Teria de ser muito mais disciplinado no capítulo da alimentação e do descanso. A nível de treino e suplementação sou bastante disciplinado e aqui não iria custar-me muito, agora no resto… E agora também com 35 anos, acho que já iria um pouco tarde demais…
Para quando uma entrada nas grandes maratonas por etapas? Brasil Ride, Cape Epic, etc…
Se nunca pensei em tal coisa antes, agora com a vinda de mais um betetista para a família, a vontade desapareceu quase por completo. Sou muito apegado à família e a minha profissão já me tirou muitos momentos junto dela e sei que a qualquer momento pode vir a tirar novamente. É claro que já me imaginei com o meu melhor amigo numa aventura dessas ou até mesmo com a minha mulher, mas nunca levei esses pensamentos muito a sério. Quando o filhote for mais crescido vai a família toda fazer uma prova épica…
Fazer o Transportugal é o sonho de qualquer BTTista nacional?
Tenho esse sonho, mas de o fazer em completa autonomia, não em competição e/ou participando num evento oficial.
Quando decidiu ter um site/blog?
Quando vi que precisava de um arquivo on-line de todas as minhas aventuras e de continuar a relatá-las para todos os meus amigos. Também foi a pedido de muitos desses amigos que apreciavam a minha escrita, as aventuras onde me metia, testes, rescaldos, etc.
Tem quantas visitas por mês?
Há uns anos chegou a ter uma média de 300 visitas diárias, o que foi excelente e sinceramente não estava à espera. Agora está um pouco desactualizado pelo que peço desculpa a todos os seguidores do mesmo, mas há alguém que neste momento me “rouba” muito tempo, alguém que é simplesmente, o mais importante da minha vida e que como tal, devem entender… Mas quero voltar a actualizar o site e ideias não me faltam. Falta é mesmo tempo para as pôr em prática, mas isto vai lá…
 
Para terminar, de onde vem a alcunha “Espigão”?
Vem da minha medida entre pernas de quase um metro! Sempre usei os espigões nos seus limites de segurança e estamos a falar de espigões entre os 410 e os 450mm de comprimento. Não pelo uso de quadros pequenos, mas porque é difícil arranjar maiores. Na Olympia de alumínio, um quadro XL tamanho 52 tenho um espigão de 45cm, na de carbono também XL, mas um 53cm, tenho um espigão de 41cm… Depois sempre que as estaciono junto de outras bicicletas lá se destacam entre todas as outras e mesmo quando pedalo… “lá vai o Espigão”… Assim ficou a alcunha…

 

Comentar

comentários

Leave a comment

Your email address will not be published.


*