José Guimarães, o sedentário que se tornou maratonista

Durante mais de 15 anos José Guimarães não praticou desporto, mas em 2011, desempregado e a atravessar uma fase difícil na vida, decidiu retomar a actividade. Hoje já fala em tornar-se... num Ironman!

Chama-se José Guimarães, tem 39 anos, e trabalha em Marketing Digital. É o autor do site DeSedentárioAMaratonista, uma das principais referências do atletismo amador na Internet nacional, espaço no qual partilha aventuras da corrida, treinos, provas e sugestões várias. É um verdadeiro atleta de top.

Olá, José. O nome do site reflecte a realidade? Foi mesmo de sedentário a maratonista?
Sim, embora em criança tenha praticado desporto. Fiz natação até aos 12 anos, depois ténis e  canoagem, mas no final do ensino secundário e, principalmente, depois de entrar para a universidade deixei completamente qualquer tipo de desporto, situação que mais se agravou com a entrada no mercado de trabalho. Digamos que entre os 18 anos e os 37 anos não pratiquei desporto. Embora tivesse tentado, as temporadas mais longas num ginásio não passaram dos 30 dias…
 
Então o desporto limitava-se mesmo aos tempos de escola…
Felizmente ainda atravessei um período na escola preparatória em que a disciplina de desporto era obrigatória. Não sei porque razão hoje não o é, principalmente porque anda nas bocas do mundo a importância do desporto regular. Então porque não o aplicam desde cedo, nas escolas, contribuindo também para a colocação de mais professores no activo?
O que o levou a começar a correr aos 37 anos?
Comecei a correr depois de um período muito conturbado na minha vida, após perder a minha mãe contra o cancro e depois de ter ficado desempregado. A única coisa que percebi era que tinha de fazer alguma coisa activa e que a natureza me chamava… fui para a praia correr.
Estive desempregado até há um mês, altura em que, juntamente com mais dois amigos, resolvi abrir uma empresa de Marketing Digital. É engraçado pois foi o desemprego uma das coisas que me levou a começar a correr… e é agora a corrida que me dá trabalho, pois muitos dos contactos que me permitiram criar a empresa foram feitos através da corrida.
 
Como correu o retomar da actividade física?
Recordo que detestava correr. A minha primeira experiência foi na praia de Carcavelos, aproveitando o passeio marítimo fiz dois quilómetros. Fiquei de rastos, mas quis voltar no dia seguinte e aumentar a distância. E aos poucos fui conseguindo. Não é um processo imediato, mas foi relativamente rápido, embora custoso. Ainda me lembro da primeira vez que corri 10 kms de seguida, no mesmo local. Foi uma grande vitória.
Qual foi a primeira prova? 
A primeira prova à séria, com dorsal, foi a mini maratona da ponte 25 de Abril, em 2011, mas ainda não sabia o que era correr. Talvez tenha tido a primeira boa experiência com a Corrida da Liberdade, no dia 25 de Abril desse ano. Não me recordo do tempo, mas lembro-me que foi uma boa prestação, pois tive de esperar algum tempo pelos meus amigos na meta.
A primeira prova grande em que participei foi a Meia Maratona do Douro Vinhateiro. Lembro-me de estar tão nervoso que antes da partida o cardiofrequencímetro já marcava uma pulsação de 120 bpm, equivalente ao que faço hoje a correr lentamente. Terminei a prova com 1h51m,  completamente realizado.
Decidiu de imediato começar a fazer provas regularmente?
Sim! Participar em provas motiva qualquer um. Quem não experimentou ainda, devia experimentar sem medos. Creio que foi por isso que também evoluí tão depressa. Porque participava em provas quase todos os fins de semana.
Quantas provas faz por ano?
Em 2012 participei em 17 provas, com distâncias de 8 kms, a Marginal à Noite, até distâncias de 166 km no Ultima Frontera Trail, em Espanha. No entanto, por causa das dificuldades económicas e logísticas, em 2013 vou ser mais selecto. Já  participei num Trail no início do ano por questões – digamos – afectivas, pois o Trilhos dos Abutres foi a primeira ultra maratona em que participei. Ainda irei fazer em Maio o Madeira Island Ultra Trail, de 115 km, e depois disso confesso que não sei, mas tenho planos.
Quando se tornou maratonista?
Em 2011, quando comecei a correr, cedo percebi que para ir a algum lado tinha que ter um objectivo concreto, caso contrário iria perder o rumo. Assim sendo, comprometi-me em fazer uma maratona logo nesse ano. Deixei escapar a inscrição para a maratona de Budapeste, depois a de Berlim e, finalmente, inscrevi-me para a Maratona de Munique, em Outubro 2011. Consegui atingir o objectivo com 3h38m.
Depois da estrada, passou para o trail. Porquê essa evolução?
Depois de se atingir um objectivo, temos um momento de gratificação, mas passada a euforia fica um vazio. Esse vazio levou-me a perguntar “Fiz uma maratona, e agora? Faço mais outra? Melhoro o tempo? O que faço?” Um dia a minha irmã falou-me de um tal de Carlos Sá e de uma ultra maratona das areias, no deserto do Sahara. Ultra maratona? Fui investigar e pouco tempo depois estávamos com um grupo de amigos a caminho do Grande Trail da Serra d’Arga, uma prova de trail running organizada em Caminha pelo Carlos Sá. Foi uma experiência inesquecível e estava lá o apelo da natureza. O asfalto nunca mais seria a mesma coisa.
José Guimarães com o ultrarunner Carlos Sá
Que tipo de provas mais gosta?
Sem dúvida de provas longas. Não só porque normalmente são provas com uma grande variedade de ambientes, mais solitárias, mas também porque nos obrigam a gerir tudo muito melhor, desde o esforço, o que se come, bebe, o equipamento… tudo! Provas curtas também têm o seu encanto, o da velocidade, de chegar primeiro ou mais rápido. Mas quando estamos numa prova em que o objectivo principal é chegar ao fim…
Que recordes tem actualmente?
Não tenho muita noção dos tempos, confesso. Creio que o meu recorde dos 10 kms está na casa dos 39 minuto, na São Silvestre de Lisboa,  e que já fiz os 8 kms da Marginal à Noite em 30 minutos, mas como disse antes, não estou nas corridas para quebrar recordes.
Já investiu muito na corrida?
Já, tempo e dinheiro. Se o tempo não custa a investir, já o dinheiro, principalmente para quem está desempregado… Daí este ano as coisas terem de ser mais regradas e pensadas.
Quantos pares de ténis tem?
Tenho poucos e preciso de comprar mais dois: uns para estrada e outros para trail. Tenho uns La Sportiva Raptor, para trail running, que são os meus tanques de guerra, mas estão gastos e a dar-me cabo dos pés. Gostava de poder comprar uns Adidas Riot ou algo assim mais confortável, mas terei de esperar para juntar dinheiro. Já na estrada, não sei ainda o que escolher. Tenho uns ténis de baixo perfil da K-Swiss, mas não posso abusar muito porque o meu corpo não está muito habituado a correr grandes distâncias sem amortecimento. Por isso não dispenso os velhinhos Asics… enquanto não aparece nada melhor.
E outro tipo de gadgets?
Usei muito um cardiofrequencímetro e uma aplicação (RunKeeper) no telemóvel quando treinava para a maratona. É muito útil porque de repente “alguém” que durante 16 semanas nos diz o que fazer e como correr. Agora treino sem cardiofrequencímetro, mas confesso que de vez em quando gostava de não me esquecer dele em alguns treinos. Uso um relógio com GPS sempre que vou correr, para não me perder nas distâncias.
No Grande Trail da Serra d’Arga
Quantas vezes treina por semana?
Treino todos os dias da semana, excepto à 6 sexta-feira, que é o dia de descanso. E as segundas e quartas são dias de treino duplo, corrida e ginásio.
No site tem os treinos bem esquematizados. Tem algum treinador ou é tudo auto-aprendizagem?
Aprendi muito com as corridas, com o que lia em vários sites e impressões que troquei com outros corredores. Mas chegamos a uma altura em que, se queremos resultados, temos de confiar em alguém com mais experiência do que eu. Apostei no António Nascimento, o primeiro português a participar num Ultraman. Para quem não sabe é qualquer coisa como dois Ironman de seguida. E até agora posso dizer que noto melhorias de prova para prova.
Que projectos tem de corridas para o futuro? Que provas pretende fazer?
Isso é uma coisa que nunca deixarei de fazer: planos e traçar novos objectivos  Este ano queria ir aos Alpes fazer o mítico UTMB – Ultra Trail du Mont Blanc, mas apesar de ter conquistado os pontos necessários, não tive sorte no sorteio. Assim, vou fazer as provas necessárias este ano para conquistar novamente os 7 pontos necessários à qualificação e tentar a sorte para 2014. Fora isso, gostava de participar em tanta coisa, inclusive projectos pessoais, como correr o Caminho de Santiago.
Quando decidiu fazer o site?
É engraçado perguntar isso, pois recordo-me perfeitamente. Tinha acabado de chegar a casa depois de um treino e lembrei-me “porque não faço um site para publicar os meus treinos, as minhas dúvidas, as provas… e assim motivar outros a fazer o mesmo?”. Se bem o pensei, assim o fiz e um pouco antes da maratona de Munique publiquei os primeiros posts.
Quantas visitas tem por mês?
Confesso que não me ando a portar muito bem. Há alturas em que publico muitos conteúdos, mas depois tenho outras em que publico muito poucos e isso não me traz muita consistência de visitas. No entanto, no último mês tive um pouco mais de 10 mil visitas, o que não sendo mau, não posso ainda considerar uma boa métrica.
Fala no site em fazer um Ironman. Já está a treinar para isso?
Infelizmente não. Está nos sonhos, mas ainda não lhe juntei uma data para que lhe possa chamar de objectivo. Não tem um prazo definido, nem um deadline. A causa? Falta de dinheiro. Infelizmente o nosso país está a atravessar o período de crise que sabemos e isso faz com que algumas marcas que poderiam apoiar pessoas com objectivos e projectos concretos não o façam. Sim, tenho um protejo concreto de cumprir objectivos e poder trazer alguma visibilidade acrescida para as marcas que me desejem apoiar.
José Guimarães com Dean Karnazes

Que sonhos já cumpriu graças à corrida?

Não posso dizer que cumpri algum sonho graças à corrida, mas já conheci pessoas muito interessantes e mediáticas, desde o próprio Carlos Sá, ao alpinista João Garcia, que participou num evento que organizei no ano passado, a nossa campeã Sara Moreira e até o ultra maratonista norte-americano Dean Karnazes. No entanto, a gratificação que encontro, mais do que nos sonhos, está nos benefícios que a corrida me traz não só ao corpo, mas principalmente à mente. Está nos momentos de puro prazer, de comunhão, de meditação, de confraternização. Está nas gotas de suor, nas expressões de sofrimento e nos sorrisos que se cruzam. Já reencontrei velhas amizades perdidas há anos e já fiz novas amizades que estou certo que irão durar uma vida inteira… espero eu que sempre a correr!

 

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5 Comments on José Guimarães, o sedentário que se tornou maratonista

  1. Está aí um exemplo de que não precisa de dinheiro pra praticar um desporto e se dedicar à ele. Mesmo com dificuldades financeiras, arrumou uma maneira de fazer o que gosta e obter ótimos resultados.
    Parabéns José, grande pessoa e grande atleta!

  2. Obrigado ao site TopAtleta pela amabilidade e por esta oportunidade. Correr tem sido parte integrante destes meus dois últimos anos de vida e não só não me vejo sem praticar esta atividade, como traço planos cada vez mais audaciosos para o futuro. Seja como for, corro porque gosto e é aí que encontro a minha verdadeira motivação. Espero que todos vocês que lêem estas linhas também encontrem a vossa! Um abraço e boas correrias

  3. Grande José!!
    Excelente exemplo, grande energia e dedicação, Muitos Parabéns.
    Um grande abraço.

  4. Grande Zé!!! Grande exemplo, querido amigo! Muito inspirador 🙂

  5. Meu irmão, a maior inspiração da minha Vida! 😀

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