Paulo Pires, a ambição em pessoa

Começou por uma corrida de nove quilómetros, mas este ano vai embarcar numa aventura de 168 quilómetros. É caso para dizer que o bicho mordeu-lhe com força... Leia a entrevista a este verdadeiro atleta de topo.

Tem 47 anos, é casado e tem duas filhas. Mora na zona de Lisboa, mas é natural de Estremoz e em pouco mais de seis passou de um comum sedentário para um ultra-trailer. Paulo Pires, autor do blog Runbook de um gajo que mudou de vida, confessa que nunca foi adepto da corrida até começar… a correr, mas agora até organiza treinos na praia nos quais participam dezenas de pessoas. Já fez um ultra trail em Marrocos, mas a grande aventura desportiva será dentro de algumas semanas, nos Alpes!
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Olá, Paulo. Há quantos anos começou esta nova vaga desportiva?
Há pouco mais de seis anos, na mini-maratona da Ponte 25 de Abril.
Era um sedentário antes disso?
Dava umas voltas de bicicleta e pouco mais. Entretanto já tinha deixado de fumar há cerca de dois anos, um vício que mantive durante duas décadas. Fiz uma primeira tentativa para deixar de fumar, mas não resultou devido ao meu excesso de confiança que me tramou passado pouco tempo, mas serviu para afinar a estratégia para a segunda batalha em que o vício não teve hipótese e a guerra foi ganha facilmente. Não houve prisioneiros e o inimigo foi literalmente esmagado. Quando comecei a correr, portanto, já não fumava.
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Como foi a evolução na corrida?

Depois daquela mini-maratona, de oito quilómetros, o bicho ficou cá dentro a roer e seguiu-se uma prova de 12 kms. Depois as provas de 10 kms, que despontavam por todo o lado, começaram a fazer parte dos fins-de-semana e serviam para treinar para as meias maratonas. Quando as meias maratonas já eram feitas como quem vai ali fazer 10 kms e já volta, era altura de tentar a maratona e assim sucessivamente.
Começou a correr sozinho ou teve um “padrinho”?
Um colega de trabalho, que sugeriu inscrever-me na secção de atletismo dos serviços sociais da Caixa geral de Depósitos. Na realidade já antes ele me tinha referido os benefícios da corrida, mas para mim, nessa altura, correr era a ultima coisa que me passava pela cabeça. Como 99% das pessoas que não correm, dizia que gostava muito de desporto e até praticava alguns, mas corrida era a única coisa que nunca seria capaz de fazer, que não conseguia correr quase nada, que me cansava num instante, que não tinha interesse nenhum, faço tudo menos correr, isso não. O meu irmão que também corria há muitos anos também me incentivou bastante no início. A minha empresa, a Caixa Geral de Depósitos e a sua Secção de Atletismo que apoia e incentiva a prática de diversas actividades, neste caso a corrida, também foram um grande apoio. Desde logo dá-nos o sentido do colectivo e de grupo e conhecemos outros companheiros num estado bem mais avançado que nos ajudam de todas as maneiras com dicas, experiência, convívio, etc.
E já cativou algum “sedentário” para correr consigo?
Já perdi a conta. Quando comecei com o meu blog tinha dois objectivos. Por um lado ter um histórico das provas em que participava, mas o objectivo principal era passar a mensagem. Cedo comecei a ver os benefícios de correr e com o blog rapidamente vi que a forma como escrevia era um grande incentivo para muita gente começar. Desde familiares a colegas, sou um apóstolo bem activo. No trabalho a evangelização é diária com um grupo cada vez maior de colegas que correm à hora de almoço. Quase sempre há pessoas novas a aderir.
Em que ponto se apercebeu que já estava a ser mais que apenas exercício físico e que se tinha tornado numa grande paixão?
Talvez depois da minha primeira maratona, em 2009. Nessa altura abriram-se muitas portas. Percebi que os desafios a que nos propomos podem ser ilimitados e que o mundo estava cheio deles à minha espera. Depois de ter planeado cuidadosamente essa primeira maratona, que terminei com sucesso, provavelmente com treino e dedicação muitas outras aventuras estavam ao meu alcance. Claro que quanto maior o desafio mais exigente a preparação e quando damos por nós faz parte da nossa vida.
Por essa altura já fazia trails?
Sim. Estreei-me a 31 de Agosto de 2008, nos Trilhos de Monsanto. Uma prova do circuito nacional de montanha. Os primórdios do Trail em Portugal.
Gosta mais do contacto com a natureza do que da estrada?
Hoje em dia só por acaso faço provas de estrada abaixo da maratona. Não é nenhuma obsessão, mas cada vez há mais provas de trail e nos intervalos é melhor treinar do que ir para uma prova de estrada. A estrada é boa quando estamos a começar na corrida, ajuda a ganhar endurance, depois ou se é rápido e federado ou então é um bocado aborrecido. Descobrir a natureza, enfrentar desafios, subidas gigantescas e extenuantes, trilhos mágicos, ir onde não é possível ir a não ser com os nossos próprios meios, tem um apelo muito grande. Depois há todo o ambiente de uma prova de trail, o espírito de camaradagem que é inigualável. Acho que o facto de não existirem prémios monetários – com algumas excepções – nas provas provas de trail atrai outro tipo de pessoas. Não se consegue fazer vida do trail a não ser que se seja excepcional e aí será possível obter alguns patrocínios. Isso sente-se na generosidade, na postura dos companheiros, no apoio em prova que prestamos uns aos outros, no convívio depois das aventuras que são as provas, etc. O trail é outro mundo.
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As grandes distâncias não o assustam?
Não diria assustar. Há sempre alguma perplexidade quando se vai para uma prova cuja distância nunca se realizou. Irei suportar? Conseguirei acabar? Será que aquela mazela de estimação não me vai obrigar a desistir? Mas não sou propriamente um especialista nas grandes distâncias. Nunca fiz uma prova com mais de 105 Km. Em montanha o desnível é tão ou mais importante que a distância. Mas não são esses factores que me detêm. Tento preparar-me o melhor possível e dosear o meu esforço durante a prova. As grandes distâncias vão-se superando a pouco e pouco. Quanto terminamos uma ganhamos ânimo para fazer outra um pouco maior ou mais exigente.
Qual a maior aventura desportiva que já viveu?
A maior aventura foi sem duvida o Ultra Trail do Atlas Toubkal, em Marrocos. Uma prova de alta montanha com vários picos acima dos 3000 metros e com passagem aos 3500 metros. Não tem nada a ver com desertos e areia. Em Marrocos o Atlas é o ponto mais alto do norte de África com quase 4200 metros de altitude. Podem ler uma descrição e ver vários vídeos de apresentação da prova neste link http://corremais.paulopires.net/2012/09/utat-ultra-trail-atlas-toubkal-105-km.html e sobretudo ler o relato da minha participação neste link http://corremais.paulopires.net/2012/09/utat-ultra-trail-atlas-toubkal-105-km.html.
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E qual o episódio mais extraordinário que tem para contar?
O episódio mais extraordinário passou-se precisamente na subida aos 3500 metros e na descida seguinte. Foi uma experiência muito marcante em que a montanha me ensinou uma lição. Felizmente as coisas correram bem e com muito sofrimento e força de vontade superei as dificuldades. O episódio está descrito no blog pelo que me poupo de repetir, basta lerem a aventura.
Está apurado para o Ultra Trail de Mont Blanc. Era o maior sonho que tinha para este ano?
Quando se gosta de trail, o Mont Blanc é o sonho de qualquer um. Não é seguramente a prova mais difícil – e ainda bem – nem a mais longa, nem a que tem maior desnível. Mas é a mais emblemática. É a prova rainha, pelo número de participantes, pelo cenário, pela organização, pelo ambiente que se vive. Acho que não imaginava que seria seleccionado. Depois de ter obtido os 7 pontos necessários para ir ao sorteio concorri sabendo que seria uma sorte gigantesca conseguir entrada directa logo no primeiro ano. Mas aconteceu. A mim que nunca me sai coisa alguma em sorteios. Obviamente vai ser inesquecível. Nunca imaginei ir tão cedo participar numa prova de 168 kms, que implica duas noites de prova em alta montanha. Vai ser um desafio gigantesco. Se voltar atrás pouco mais de ano, tinha acabado de me inscrever nos 100 kms de Portalegre, a minha primeira prova nessa distância, e acompanhava as provas do Mont Blanc e pensava se algum dia conseguiria enfrentar uma coisa com tamanha envergadura. E agora aqui estou eu a treinar para ela. É de facto um sonho que se vai realizar.
Como se está a preparar para esta prova?
Estou a tentar seguir um plano de treinos, mas as cargas de quilómetros têm de ser geridas com cuidado. É preciso ouvir o corpo e também manter algum equilíbrio na vida profissional e familiar. Nesta fase estou a fazer grandes distâncias e tento juntar amigos que felizmente respondem e me acompanham em maluquices, tipo Setubal-Corroios durante a noite e grandes cargas em dias consecutivos, como o fim-de-semana em que fomos acampar para a Serra da Estrela para correr 100Km. Mais tarde vou reduzir a distância e aumentar os treinos específicos. Tenho visto entrevistas com dicas dos craques, baseio-me em alguns planos de treinos, vou adaptando ao meu nível e retiro o essencial que consigo encaixar na minha vida pessoal e familiar.
Qual a sua média de treinos por semana?
No mínimo cinco vezes por semana, mas nem sempre é preciso sair para correr. Pode ser apenas trabalho de reforço muscular.
E quantas provas faz por mês?
Normalmente todos os fins-de-semana. Por vezes as melhores provas são longe de casa e obrigam a deslocações de um ou dois e aí evito sair dois fins-de-semana seguidos. Felizmente basta ir ao Facebook e há inúmeros amigos a organizar treinos e desafios, ou então organizo eu qualquer coisa e aparece sempre alguém para acompanhar. Esta é outra das vantagens do trail. É só arranjar um bom track e sai-se para a serra para correr umas horas com amigos com a maior das facilidades. Basta levar o track no GPS e não há trilho que não se faça.
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Quando teve a ideia de criar o seu blog?
Foi logo depois de começar a correr. As provas eram tantas que se não começasse a fazer um diário rapidamente as coisas ficariam esquecidas no tempo. Depois percebi que seria excelente contar a minha experiência. Se eu mudei de vida qualquer pessoa conseguiria mudar. Basta querer.
Sente necessidade de escrever a partilhar as experiências?
Sobretudo isso, partilhar experiências. Somos um povo um bocado macambúzio. Basta participar numa prova e ver os zombies que estão a assistir no passeio. É importante partilhar as nossas experiências. É importante mudarmos as mentalidades. Ao escrever estou a partilhar com toda a gente o meu percurso. Está todo ali. Quem quiser saber como treinei para os 100 kms basta ver o meu blog. Estão lá todas as provas. Acho que incentivo outros a escrever e a fazerem o mesmo. Hoje já não tenho tempo para escrever sobre todas as provas, até porque muitas são repetidas e acaba por não haver nada de muito novo a dizer. Depois também o tempo não abunda, aliás cada vez há menos. Agora tento mudar um pouco o âmbito da coisa. Analisar equipamento, dar conselhos e continuo a escrever sobre algumas aventuras mais excepcionais. Quando pesquiso sobre alguns temas ainda se encontra muito pouca coisa em português. Espero contribuir um pouco para reduzir essa lacuna.
Que tipo de texto atrai mais leitores?
As grandes aventuras, pois são as que mais fazem sonhar as pessoas. Ou então algum artigo mais cobiçado do qual faça uma análise.
Os seus treinos lunares já se tornaram populares. Explique o que são e como nasceram.
Os treinos lunares ocorrem sensivelmente com uma periodicidade quinzenal em cada lua cheia e lua nova. Nestas noites há uma maré vazia por volta das 20h30 na Costa da Caparica. Sempre. Na sequência da 1ª São Silvestre Pirata, que foi feita em Monsanto, achei a ideia tão fantástica e o convívio tão bom que me lembrei de tentar repetir algo semelhante, mas que pudesse ser recorrente. Depois de pensar um pouco no assunto e na forma de aproveitar os recursos que temos à mão ali na margem sul veio-me à ideia que seria interessante juntar a corrida na praia com a noite e com um convívio no final. A Lua é o álibi perfeito para nos encontrarmos quinzenalmente. Como o ciclo lunar tem mais ou menos 15 dias, o dia da semana vai avançando ao longo do ano. Este facto permite que de uma maneira ou de outra toda a gente possa participar. Para uns dá mais jeito o fim-de-semana, para outros o dia de semana. Salvo raras excepções é a Lua que define o dia dos treinos. Ao longo do tempo afinámos a duração do evento e estabilizámos em uma hora. Outra coisa excelente é que o treino é feito por tempo e não por distância. Vamos, na maré vazia, praia fora, 30 minutos em direcção à fonte de telha e ao fim de 30 minutos toda a gente inverte o sentido e regressa à partida. Assim cada um vai ao seu ritmo, pode ser a 4 min/km ou a andar. Todos acabam ao mesmo tempo. Assim cada um treina à sua medida. Na realidade formam-se grupos com vários andamentos e toda a gente vai à conversa. No final como não jantámos toda a gente partilha um pequeno petisco que entenda levar. Pode ser uma bebida, um bolo, um prato mais elaborado. Em 60 treinos já vimos de tudo, mas acaba sempre por aparecer alguém a inovar.
Que material usa, ténis, mochilas, vestuário, etc.
Uso ténis Asics. Foi uma marca que experimentei e que foi ficando. Mas acredito que os modelos de topo de qualquer marca são igualmente bons. É quase uma escolha pessoal. Como tenho uns pés muito sensíveis, tenho tendência a valorizar um bom calçado que não me cause problemas.  Só muito recentemente percebi a necessidade de usar material de topo noutros componentes, tais como corta-ventos e impermeáveis. Quando vamos para a montanha o assunto é mais sério. É um facto que o material de boas marcas é mais caro, muitas vezes fruto de tecidos e componentes de qualidade superior. Mas se pensarmos que a nossa vida pode estar dependente de pouparmos 100 ou 200€ ganha-se uma outra visão do assunto. Em montanha, quando a natureza resolve zangar-se e agravar as condições meteorológicas não sobra muito espaço para quem vai mal preparado.  E mesmo que não cheguemos a pôr a vida em risco é frustrante uma desistência porque íamos mal preparados. O tempo pode mudar muito depressa ou simplesmente avaliámos mal as condições que iríamos encontrar no topo.
Actualmente faço parte da Salomon Test Team o que me permite testar e escrever sobre o material da Salomon pelo que em breve irei fazer várias análises a este material.
Já investiu muito dinheiro?
Não posso dizer que o tenha feito. Tirando uma ou outra peça que considero mais importante pode-se optar por marcas brancas. Uns bons ténis duram no mínimo seis meses e podem encontrar-se boas promoções de modelos do ano anterior, quer nalgumas lojas físicas, quer na Internet. Tendo em conta que correr não tem qualquer outro custo associado diria que 200€ ou 300€/ano são mais do que suficientes, até um nível intermédio. Depois quando começamos a abarcar desafios maiores o investimento em material de topo torna-se irrelevante face a outros factores; deslocações; risco envolvidos; conforto; etc.
Num ambiente familiar, como se convence a mulher a gastar pequenas fortunas em material e viagens/estadia para se participar numa prova no estrangeiro?
Normalmente a nossa mulher gosta de nós. GPaulo-Pires-2osta que regressemos das nossas aventuras. De preferência que regressemos felizes. Só isso já é uma grande ajuda ao investimento.
Outra coisa que ajuda é, sempre que possível, levar a família e partilhar umas férias antes ou depois do evento. Felizmente no meu caso tenho a felicidade de ter uma família que me apoia e que está muitas vezes presente. Também consegui que a minha mulher participasse nos eventos mais pequenos pelo que muitas vezes ela vai comigo também para participar. É a solução ideal e tive a sorte de conseguir trazê-la para a corrida e para o trail.

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comentários

1 Comment on Paulo Pires, a ambição em pessoa

  1. Grande entrevista! Fui um dos “tocados” pelo entusiasmo do Paulo.

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